sábado, 16 de março de 2013

Método, filosofia e práxis: uma reflexão sobre o propósito da busca pelo conhecimento




A compreensão ou problematização das complexas relações entre método, práxis e filosofia possui um percurso histórico longínquo. Desde a filosofia antiga até a contemporânea, procura-se compreender a realidade, seja para transformá-la, seja para simplesmente compreendê-la, mas o que não muda é o telos ou propósito do homem, que nesta busca almeja encontrar uma vida melhor, e com isto a felicidade, baseando-se numa reflexão que transforme tanto a realidade cognoscível quanto o sujeito cognoscente.
O método pode ter o seu sentido considerado a partir da compreensão etimológica, onde a junção das palavras grega meta, através, e hodos, caminho, que representam o caminho através do qual buscamos um propósito, que orienta o modo de conduzir uma investigação científica (COTRIM; FERNANDES, 2011, p. 328); no caso da filosofia representa um procedimento que busca compreender os problemas que nos são apresentados a partir da realidade da existência humana.
Nos estudos que compreendem a Filosofia “o método é questão basilar para que possamos analisar crítica e criteriosamente, as matrizes históricas que dão e deram sustentação à estrutura e à organização da realidade” (DONIZETE, 2012, p. 41).
A concepção metodológica moderna para a produção da ciência busca recuperar o espírito grego (p.37), contudo acaba por produzir um recorte sobre o pensamento, entre científico e filosófico. Descartes considerava conhecimento verdadeiro somente aquele que fosse evidente, intuível, claro, e preciso, e, além disto, ele mesmo afirma que havia formado um método para que ‘conseguisse aumentar de forma gradativa o seu conhecimento, elevando-o pouco a pouco, ao nível mais alto, superando o conhecimento medíocre do próprio espírito’ (DESCARTES, 1999, p.36); com isto o autor separou o conhecimento em um nível inferior e outro de um nível superior.
Ao descrever as formas de conhecimento, Immanuel Kant também havia o reduzido a somente duas formas, a saber, o conhecimento a posteriori ou empírico, e o conhecimento a priori ou puro, reduzindo assim as possibilidades de conhecimento (KANT, 1999, p. 9), proposição esta que acaba por nos exigir a demonstração daquilo que conhecemos, ou seja, a prova.
A lógica que rege o pensamento científico contemporâneo torna central tal necessidade de demonstração; de modo que a ciência funda-se, entre outras exigências, na ideia de método ‘como um conjunto de regras’, normas e procedimentos gerais (CHAUÍ, 1998, p. 278), acrescento ainda, que nos conduza à um resultado.
O principal objetivo da ciência passa ser, por meio do uso de métodos, o de confirmar ou falsificar as hipóteses levantadas sobre determinado experimento ou objeto. Na mesma linha afirma Japiassú e Marcondes que o método é o “conjunto de procedimentos que visam atingir um objetivo de terminado” (2001, p. 181). Do mesmo modo, ao final da Crítica da Razão Pura, Kant afirma que se poderíamos nomear algo como método, deveria ser um ‘procedimento segundo princípios’ (1999, p. 504).
Do mesmo modo, o professor Marcelo Donizete afirma “a filosofia deverá ter clareza dos problemas reais existentes em nosso contexto histórico. Daí a necessidade do método como critério de investigação e produção do pensar humano” (DONIZETE, 2012, p. 36).
O método nos auxilia na busca pela objetividade da pesquisa, mas também na apresentação dos resultados da pesquisa. É um caminho, mas não “o caminho”, a ser seguido na tentativa do filósofo de construir e problematizar a pergunta. As perguntas se tornam pesquisa, e a pesquisa, objeto de reflexão filosófica. Sendo que a reflexão “é o ato de retomar, reconsiderar os dados disponíveis, revisar, vasculhar, numa busca constante de significado” (SAVIANI apud DONIZETE, 2012, p. 42).
O papel da filosofia na produção do conhecimento é o de buscar a certeza, por meio da reflexão fundamentada no rigor técnico do método, submetendo e discutindo a doxa, opinião, senso comum, transformando-o em episteme, que embora tenham diferentes sentidos, é marcado pela oposição a doxa, indicando um novo tipo de conhecimento, fruto da technné (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2001, p. 84; DONIZETE, 2012, p. 42).
A filosofia sob diversas perspectivas produziu algum tipo de práxis em sua reflexão. Em Platão encontramos uma preocupação em transformar o saber em benefício dos habitantes da polis; o filósofo francês Descartes buscava encontrar na sabedoria produzida pela filosofia, um uso para a vida; Kant intentava encontrar como finalidade a felicidade humana; já Marx buscava, por meio da reflexão aliada à ação, transformar a realidade para produzir justiça e felicidade para todos; tanto que o jovem Marx, em A ideologia alemã, critica a concepção de história dos hegelianos e a distinção que estes fazem entre os homens e animais, atribuindo-lhes diferença pelas consciências e religião, mas o fundamental e que distingue o homem dos outros seres é mesmo a sua capacidade de produzir seu modo de subsistir (MARX, 2009, p.24).
Percebemos que o método, em determinado momento histórico, passa a auxiliar a filosofia na produção de objetividade da práxis. A práxis é uma ferramenta, do pensar e do agir, pela qual se torna possível pensar a realidade humana, tornando-nos conscientes das concepções de realidade e de suas ideologias; possibilitando “a análise de transformação do contexto real” (DONIZETE, 2012, p. 49).
É na consciência de nossa historicidade, que ultrapassamos o senso comum da realidade, e como afirma Gramsci (ALMEIDA, p.2), superamos o senso comum e encontramos o bom senso. A nossa historicidade, a consciência que temos dela, será a condição para efetivamente criarmos as possibilidades da crítica da realidade que desvela a contradição que existe na história e na realidade. Deste modo, seria o homem concreto analisando sua condição concreta, buscando refletir sobre as ações humanas, especialmente sobre o seu saber e o seu fazer.



Referencias Bibliográficas


ALMEIDA, Natália Regina de Almeida. Aspectos da filosofia da práxis: conteúdo e método. UERJ: Rio de Janeiro. In: http://www.nufipeuff.org/seminario_gramsci_e_os_movimentos_populares/trabalhos/Natalia_Regina_de_Almeida.pdf. Acessado em 09 de março de 2013, às 22h: 00min.

COTRIM, Gilberto; FERNANDES, Mirna. Fundamentos da filosofia. São Paulo: Saraiva, 2011.

DESCARTES, Rene. Discurso do método. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (coleção pensadores).

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (coleção pensadores)

MARX, Karl. A ideologia alemã. São Paulo: Expressão Popular, 2009.

SILVA, Marcelo Donizete da. Metodologia da pesquisa filosófica: Batatais: Ação Educacional Claretiano, 2012. (Unidade I)

Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13).

"Tudo posso naquele que me fortalece", ao contrário da tônica triunfalista empregada por diversos setores evangélicos, representa na verdade uma das maiores expressões de contentamento do Apóstolo Paulo.
Antes de Paulo ancorar esta expressão em sua carta, ele afirma ter aprendido o sofrimento, e tal expressão "posso todas as coisas", significa um contínuo aprendizado que o apóstolo alcançou contido de uma capacidade de suportar o sofrimento, tudo isto pela graça do Senhor Jesus Cristo em sua vida.
Talvez tenhamos que aprender a nos contentar um pouco mais com o que temos no mundo em que vivemos, relendo palavras como estas do apóstolo Paulo.

Alexandre da Silva Chaves

Alexandre da Silva Chaves

Solidariedade é um dom de Jesus Cristo à Igreja: Pratique!!

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